Sempre achei curiosa a pergunta: você acredita em Deus?
A minha resposta padrão é: Ele andou mentindo para você?
Essa resposta deveria fazer duas coisas. A primeira é responder à pergunta do meu interlocutor. A segunda é encerrar o assunto. No entanto, quase sempre, as pessoas querem mais detalhes, a fim de se certificarem se entenderam a minha resposta, dada nesse tom irônico.
Agora, vamos pensar na quantidade de coisas cuja existência ignorávamos e que, somente depois de algum acontecimento, essas coisas passaram a fazer parte do rol de coisas que julgamos que existem. Os bebês, até certa idade, por exemplo, pensam que os pais deixam de existir assim que saem do campo de visão. Ou seja, ninguém mais existe além daquelas pessoas que estão em seu campo de visão.
Houve um tempo em que a humanidade não sabia da existência de outros continentes, de outros povos, de certos animais.
Tudo isso tinha a sua existência ignorada, ou seja, para um grupo de pessoas, aquilo que não havia chegado a sua consciência simplesmente não existia.
Qualquer pessoa pode viver essa experiência do nem saber que isso existia e, depois de chegado a sua consciência, passou para o conjunto das coisas que existem para aquela pessoa. Esse fenômeno não se confunde com o caso das coisas novas, isto é, as coisas que nunca existiram e que passaram a existir, como determinadas máquinas. As coisas novas são coisas que não existiam e, a partir de dado momento, passaram a existir, o que não é o caso de coisas que simplesmente existiam independentemente da nossa consciência sobre elas.
E se há tantas coisas que nossa consciência não sabia da existência, mas que existiam mesmo assim, porque não aceitar que pode haver muito mais coisas que existem por si? Essas coisas que existem por si, não precisam da nossa crença ou da nossa consciência sobre elas. Assim como os continentes que existiam antes das aventuras marítimas provarem a sua existência, como as galáxias existiam antes de os físicos concluírem que elas estão lá, devemos admitir que a nossa consciência e intelecto são limitados demais para compreender toda a magnitude do universo e das coisas que nele existem por si.
Enquanto que para alguns o conceito de Deus se formou por uma necessidade de racionalização da existência do ser humano, para outros é uma criação para a dominação de uma elite sobre o povo.
Quanto à dominação de uma elite, um dos argumentos é que a crença em Deus torna as agruras da vida mais suportáveis e mantém o povo dócil. Além disso, a crença em Deus busca favorecer os ricos no sentido de que algumas religiões pregam a aceitação da pobreza como algo que trará o benefício de Deus na vida eterna.
Há ainda os que julgam a não existência de Deus pela impossibilidade de se provar a sua existência. Mas se podemos dizer que algo não existe somente pelo fato de que a nossa inteligência e consciência limitadas não o concebe, nenhum crescimento seria possível, pois nossa arrogância intelectual não permitiria. Por outro lado, tentar provar a não existência de algo fora da matemática é um ato ridículo.
Em matemática podemos provar que não existe uma solução para determinado problema e explicar a razão da não existência. No entanto, para provar a não existência de Deus, a lógica booleana, a lógica nebulosa, ou qualquer outro método humano de prova restaria inútil, pois São métodos humanos aplicados a algo que supomos ser sobrenatural.
Eu uso um princípio de que o que é natural não se aplica ao que supusermos ser sobrenatural. Sendo assim, nenhuma tentativa de provar a existência ou a não existência teria validade.
Desde que não podemos provar a existência ou a não existência e admitimos a limitação de nossas inteligência e consciência, podemos dizer que você não precisa acreditar em Deus, se esse é o seu desejo. De forma análoga, se você quer não acreditar em Deus, não precisa de aprovação social, isto é, de pessoas que confirmem a sua não crença.
De um jeito ou de outro, precisamos admitir que há coisas que estão muito além da nossa capacidade intelectual e, tendo humildade de intelecto, não devemos jamais sermos categóricos na afirmação da não existência das coisas que de que não temos consciência e as quais não entendemos.
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